Ocorre que também o amor acaba.
Ocorre que chamas se abrandam
e o que fica (cinzas de onde
ave alguma renasce) desespera
mas não perturba o desolado deslizar no sono
nem altera o sofrido passo cotidiano
em busca de um mínimo trato com a vida.
Ocorre que as mãos estao cansadas.
Os punhos cerrados e as unhas
por dever de ofício bem aparadas
hesitam ante o trabalho que uma futura,
desejada carícia reinvindica,
embora, se preciso, ainda afastem
qualquer arma,
branca ou mais explícita,
que as mãos, sem ou com vigia,
sempre criam por si mesmas
quando amargura e desconsolo são a substância
do tempo que se respira e do chão que se pisa,
à beira do copo num bar sombrio,
no banco de uma igreja indiferente
ou na lágrima seca, irrelevante, involuntária,
que desce de olhos quietamente pasmos
ao som de Mozart navegando longe
entre flores de pó germinadas
na mais estrita, árida solidão.
Ocorre que a política,
a dos corpos que, como cavalos sôfregos,
aos urros se postulam,
ou a propriamente dita,
dos princípios e crenças
que entre pequenas e grandes traições,
remorsos afogados em vago licor
e o bem vindo vômito redentor
não se cumprem
(e por isso se chama política),
ocorre que a política não move
à fala o coração tocado
pela graça de um sorriso alheio
que subitamente se decifra
hieróglifo a intrigar o olhar emocionado,
nem faz a mente urgir um esquema
de ir à rua convocar tudo e todos
a se ordenarem numa forma sensível
de amar o próximo como a si mesmo.
Ocorre que a memória se recusa
a justificar o que foi feito
e o que não foi - e desespera.
Ocorre que faz frio no passado,
frio no presente,
frio no futuro,
e não há fogo,
não há álcool
nem lençol
que não façam o frio mais
frio - e desespera.
Ocorre que há um lugar vago
no corpo, na mesa, no passeio a pé,
nas viagens de fim de semana,
na cama - e desespera.
Ocorre que falta ao verso uma palavra
e pausa e silêncio e branco da página
- sutil mordaça -
não passam de desculpa
esfarrapada - e desespera.
Ocorre,
e isso é tudo,
que a poesia é pouca
e desespera.
- Pedro Paulo de Sena Madureira